quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

matrix

parar e ouvir a voz de dentro. tal como no matrix, suspender o mundo em redor. existir, simplesmente.

podes dar as voltas que deres, enfiar a cabeça na areia e fazer de conta que a casa não está a arder, atirar pela janela as provas da falta de verdade na tua vida, podes tentar ser mais um dos outros, "normal", fazer tudo como manda o figurino, pintar o rosto, ondular o cabelo, comprar saias catitas a combinar com sapatos de todos os formatos, ainda mais catitos que as saias, tudo a combinar, um mimo!
podes fazer tudo! a ginástica toda que quiseres para teres o sorriso certo, A palavra certeira no momento exacto, a ideia brilhante na aridez da criatividade. ser carinhosa mais que q.b., aguentar estoicamente a falta de atenção, a falta de amor, podes engolir a rebeldia e sufocá-la no esófago, fazer nascer das entranhas, planta doente sem raiz, uma submissão que não é tua, nem reconheces!, podes ter as rotinas dos outros, podes tentar andar pela beirinha e pela sombra, e falar baixinho, e rir sem gargalhar, e fazer tudo direitinho! imaculadamente direitinho, até se terem esbatido todas as semelhanças com a essência do que és e seres apenas uma boneca arranjadinha num corpo revoltado por não conhecer - repudiar até - aquela estranha que tomou conta de ti, dos teus gestos e palavras... e deixares de escrever com medo de pensar e sentir, e abafar aquela-tu que subjugaste com o peso da culpa e da vergonha... segredos. de dentro. nem te lembras como começou, apenas do momento em que decidiste voltar as costas a ti e inventar uma vereda de paraíso que, umas curvas depois, se revelou um inferno.

até um dia.

AQUELE dia em que, finalmente, olhas o canto do costume no tecto do teu quarto e sentes, com a lucidez inquestionável da fatalidade, que já não aguentas mais.
então, cai tudo. desabam as torres sem castelo de um reino que não existe, volta, reviravolta, fica tudo baralhado, tudo perdido, a casa outra vez a arder, ninguém percebe, nem compreende, ninguém se entende, todos à procura do bode expiatório para carregar as culpas da desgraça e fica o mundo de pernas pró ar, tudo ainda mais baralhado. AQUELE dia em que dás o passo mais difícil de todos, o primeiro, para lá do desespero que tanto trabalho deu para construir.

parar e ouvir a voz de dentro. tal como no matrix, suspender o mundo em redor. existir, simplesmente.

e aceitar. as lágrimas e a dor. as tuas e as deles, porque tudo o que fazes ecoa na vida de outros, não somos ilhas. então, pouco a pouco, a cada dia, vais avançando. quando reparas, os teus joelhos estão esfolados e dói tudo, por dentro e por fora, mas não é possível voltar atrás. seria morrer. e o amor pela vida continua vivo dentro de ti, em redor de ti, e não te deixa capitular. percebes, depois de muitos tentativa-erro-tentativa-erro, que só tens uma única via e é para a frente... começas a acreditar que é possível mudar, seguir caminho e sorver a vida no ar que respiras, no sono solto das almas novas, beijar as noites, abraçar as manhãs, ou vice-versa, ou as duas coisas ao mesmo tempo... e, sem rodeios, complicómetros ou rebuscados porquês, podes, finalmente... ser tu.

http://media.comicbook.com/uploads1/2014/12/neo-114938.jpgfeliz ou miserável, mas tu. fiel. verdadeira.


mas tudo isto... só depois do primeiro passo... parar e ouvir a voz de dentro. tal como o matrix, suspender o mundo em redor. existir, simplesmente.

e amanhã de manhã, quando acordares, pode bem ser o teu primeiro dia.

tu decides.




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016



aquele momento em que chegas à conclusão que, estando tudo certo, fizeste tudo errado... ou quase tudo, porque eu cá sou dramática e exagero à fartazana...
este, é um desses momentos.
prestes a mais um feliz cumpleaños, cariño!, sinto-me como um capitão ao leme de uma frota considerável, todos os barcos em simultâneo, todos em sintonia... todos, menos aquele barquito pequenino que é a menina dos olhos desse lobo do mar cansado... essa casquita de noz que luta por se manter à tona, esse, o capitão não sabe pilotar...

hoje,chorei e ri ao mesmo tempo. não como das outras vezes. hoje foi diferente.
a mesma lágrima que chorava a tristeza, lambia os recantos do sorriso de alegria.

não sou bipolar. mas às vezes, apetecia...



foto: http://poesia-de-mel.blogspot.pt/2013/04/a-deriva.html