podes dar as voltas que deres, enfiar a cabeça na areia e fazer de conta que a casa não está a arder, atirar pela janela as provas da falta de verdade na tua vida, podes tentar ser mais um dos outros, "normal", fazer tudo como manda o figurino, pintar o rosto, ondular o cabelo, comprar saias catitas a combinar com sapatos de todos os formatos, ainda mais catitos que as saias, tudo a combinar, um mimo!
podes fazer tudo! a ginástica toda que quiseres para teres o sorriso certo, A palavra certeira no momento exacto, a ideia brilhante na aridez da criatividade. ser carinhosa mais que q.b., aguentar estoicamente a falta de atenção, a falta de amor, podes engolir a rebeldia e sufocá-la no esófago, fazer nascer das entranhas, planta doente sem raiz, uma submissão que não é tua, nem reconheces!, podes ter as rotinas dos outros, podes tentar andar pela beirinha e pela sombra, e falar baixinho, e rir sem gargalhar, e fazer tudo direitinho! imaculadamente direitinho, até se terem esbatido todas as semelhanças com a essência do que és e seres apenas uma boneca arranjadinha num corpo revoltado por não conhecer - repudiar até - aquela estranha que tomou conta de ti, dos teus gestos e palavras... e deixares de escrever com medo de pensar e sentir, e abafar aquela-tu que subjugaste com o peso da culpa e da vergonha... segredos. de dentro. nem te lembras como começou, apenas do momento em que decidiste voltar as costas a ti e inventar uma vereda de paraíso que, umas curvas depois, se revelou um inferno.
até um dia.
AQUELE dia em que, finalmente, olhas o canto do costume no tecto do teu quarto e sentes, com a lucidez inquestionável da fatalidade, que já não aguentas mais.
então, cai tudo. desabam as torres sem castelo de um reino que não existe, volta, reviravolta, fica tudo baralhado, tudo perdido, a casa outra vez a arder, ninguém percebe, nem compreende, ninguém se entende, todos à procura do bode expiatório para carregar as culpas da desgraça e fica o mundo de pernas pró ar, tudo ainda mais baralhado. AQUELE dia em que dás o passo mais difícil de todos, o primeiro, para lá do desespero que tanto trabalho deu para construir.
parar e ouvir a voz de dentro. tal como no matrix, suspender o mundo em redor. existir, simplesmente.
e aceitar. as lágrimas e a dor. as tuas e as deles, porque tudo o que fazes ecoa na vida de outros, não somos ilhas. então, pouco a pouco, a cada dia, vais avançando. quando reparas, os teus joelhos estão esfolados e dói tudo, por dentro e por fora, mas não é possível voltar atrás. seria morrer. e o amor pela vida continua vivo dentro de ti, em redor de ti, e não te deixa capitular. percebes, depois de muitos tentativa-erro-tentativa-erro, que só tens uma única via e é para a frente... começas a acreditar que é possível mudar, seguir caminho e sorver a vida no ar que respiras, no sono solto das almas novas, beijar as noites, abraçar as manhãs, ou vice-versa, ou as duas coisas ao mesmo tempo... e, sem rodeios, complicómetros ou rebuscados porquês, podes, finalmente... ser tu.
feliz ou miserável, mas tu. fiel. verdadeira.mas tudo isto... só depois do primeiro passo... parar e ouvir a voz de dentro. tal como o matrix, suspender o mundo em redor. existir, simplesmente.
e amanhã de manhã, quando acordares, pode bem ser o teu primeiro dia.
tu decides.
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